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Entrevista com Janaina Zambotti

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Por Marcela Liz

Formada em Propaganda e Marketing pela Universidade Paulista, Janaina Zambotti percorreu um longo caminho em sua área até tornar-se a produtora e produtora executiva responsável pelas principais operações da Sincronia Filmes – casa que ela abraçou juntamente do fundador e diretor da empresa, Emanuel Mendes. Trabalhou em marketing, em empresas do segmento de compra coletiva e, principalmente, como organizadora e coordenadora de eventos dos mais variados ramos. Mas Janaina é antes e fundamentalmente uma pessoa das artes. “Amo fotografia, música e filmes”, diz ela, arrumando os cabelos loiros enquanto sorri timidamente quase encolhendo os grandes olhos verdes que lhe ornamentam o rosto. Foram essas três paixões o que a levaram a realizar alguns trabalhos que invariavelmente a conduziram para a Sincronia Filmes: a convite da autora e fotógrafa Patricia Innocenti, Janaina participou do livro Brasil – Volume 1, fazendo assistência e ajudando na diagramação. Juntas, viajaram o país de norte a sul e o resultado foram algumas das mais belas, inusitadas e desconhecidas paisagens de um Brasil repleto de nuances e diversidade. Mas ela ainda mantém uma conta no Instagram – onde assina como Jana Zamb –, a qual utiliza para postar as fotos que capta pelos caminhos onde percorre ou às vezes até mesmo dos jobs realizados para a Sincronia. Na produtora, ela virou a pessoa que corre atrás do financiamento e levantamento dos projetos, além de ser “uma espécie de CEO”, em suas próprias palavras. Foi sua perseverança e luta o que conseguiu fazer ver a luz da projeção o primeiro longa-metragem da empresa: A Tecnologia Social, documentário a ser rodado parcialmente na África do Sul, e que recebeu aporte de uma empresa privada americana, falando sobre empoderamento feminino no mundo de hoje e como as novas mídias estão ajudando no esclarecimento e combate a doenças como a Aids e outras transmitidas sexualmente. Nesta entrevista, ela conta sua trajetória, como é sua rotina de trabalho e os desafios de se levar a cabo uma produtora audiovisual em um país quase impossível.

Deve ser uma sensação e tanto o fato de se começar uma carreira em uma determinada área, mudar dela e de repente em um outro segmento, o de cinema, que é um negócio tão difícil no Brasil, ver um projeto no qual se investiu tanto esforço ser recompensado dessa maneira. Você se via como produtora de cinema?

(Risos) Engraçado, tento não pensar dessa forma, muito embora eu não tivesse a mínima pretensão, muito menos imaginar, produzir cinema. Tento fazer meu trabalho da melhor forma possível, não importa o que seja – e também não consigo fazer as coisas de qualquer jeito, sem ser detalhista. Quando organizava eventos, passava horas preparando e revisando todos os detalhes, fazendo planilhas, orçando os diferentes preços, e quando ia a campo, era eu a responsável por gerenciar o pessoal, por deixar tudo funcionando direitinho, o que de certa maneira tem a ver com o trabalho de produção. O que eu fazia era, a rigor, produção, só que eu não produzia filmes, e sim eventos (risos). Então acho que a experiência dessa minha última atividade me ajudou a moldar as outras que desempenho hoje na Sincronia.

E quais são as outras atividades que você realiza lá dentro?

Bem, além de produzir, estou encarregada de uma administração e coordenação geral – quase como uma espécie de CEO. Porque ainda somos uma microempresa, então são apenas nós dois, eu e o Emanuel, mais os profissionais que circulam por nós, que são freelances, e com quem às vezes trabalhamos mais de uma vez. Enquanto o Emanuel cuida da parte criativa, porque é o que gosta e faz muito bem, eu me encarrego da execução das ideias, sejam as dele ou as das pessoas que nos trazem projetos. Também cuido da parte operacional e administrativa da agência de publicidade digital que temos dentro da Sincronia, e que foi a responsável por criar as campanhas da Belugaria em 2015 e 2016, com os filmes executados pela produtora. Às vezes também assumo a direção de alguns jobs, como as entrevistas realizadas para o Hackathon da ABEME, em 2016, um evento que aliás resultou no A Tecnologia Social.

São muitas responsabilidades. Como você lida com essa rotina de trabalho?

Felizmente essa área nos permite a possibilidade de fazermos nossos próprios horários – o que raramente eu tinha quando trabalhava em outros segmentos. Então tento criar uma dinâmica para fazer com que meu dia renda o máximo possível, para que eu possa resolver tudo da melhor maneira. Além disso, gosto muito do que faço e ainda recebo para isso, então nem percebo as horas passarem.

A Tecnologia Social vai ser o primeiro longa-metragem da produtora – muito do sucesso em se obter o financiamento para ele deve-se à sua perseverança e confiança no projeto. Como foi a trajetória para que conseguissem o financiamento e o que isso representa para seu trabalho e a Sincronia Filmes como um todo?

Foi uma conjunção de fatores. O projeto nasceu inicialmente porque fomos os responsáveis por cobrir o Hackathon da ABEME. Este foi um evento que aconteceu em São Paulo, em março de 2016, para a criação de soluções digitais – em uma palavra, aplicativos – que ensinassem e direcionassem jovens e adolescentes na conscientização e nos perigos das doenças transmitidas sexualmente. Nós realizamos entrevistas – as quais eu dirigi – e também um filme institucional, que o Emanuel dirigiu, chamado aliás A Maratona Social. Deste trabalho, nasceu a ideia de se fazer um documentário falando sobre este tema – que, acredito eu, é relevante e de certa forma inédito no cinema brasileiro. Isso em si já é uma tremenda conquista para mim como profissional e para a produtora, que sempre esteve preocupada em fugir do tradicional, em tentar fazer as coisas diferentes, não-clichê. E espero sinceramente que seja isso o que nos diferencia, e o que abra portas para futuros outros trabalhos na mesma linha. Porque a principal preocupação, neste projeto específico do Tecnologia, é falar com os jovens, e fazer isso de uma forma jovial, moderna, o que acho que foi o que seduziu a empresa privada nos EUA que injetou o financiamento no projeto – inclusive foi a primeira coisa que nos disseram quando fizemos a reunião no escritório deles aqui em São Paulo. Sem eles, não teríamos conseguido.

E qual empresa é essa?

Não posso dizer porque assinamos um contrato de confidencialidade no qual está especificado não divulgar o nome.

Vocês tentaram outras formas de financiamento?

Inúmeras! Mas havia alguns entraves: o país estava no auge da crise política – o que estagnou diversos setores, inclusive e principalmente o audiovisual, muito por causa dos escândalos envolvendo a Lei Rouanet. Isso nos deixou muito frustrados, a mim e ao Emanuel, porque tanto ele quanto eu ficamos chocados com o uso indevido e nefasto que se fez dela. Também tentamos os fundos internacionais, alguns aliás investem em coproduções ou são específicos para documentários – mas os entraves burocráticos eram enormes e muitas vezes não tínhamos o tempo hábil para montar o projeto. Mandamos e-mails para empresas, fizemos telefonemas, falamos com pessoas, com outros produtores, mas nada. Até que conseguimos os contatos de algumas empresas-chave, multinacionais com escritórios no Brasil, e, surpresa!, fomos muito bem atendidos e recepcionados já na primeira que ligamos (risos)! Nos deram as orientações sobre como proceder, fizemos uma reunião presencial e enviamos o projeto para a empresa lá nos EUA. Precisamos aguardar quatro meses até obtermos uma resposta que, no fim, foi superpositiva.

O modo como o filme encontrou financiamento foi de certa maneira diferente do habitual, arrisco até dizer que foi inédito, ao menos em termos brasileiros de produção audiovisual. Te preocupa o fato de ele ser um documentário – cujo nicho é muito específico e até visto um pouco com desdém?

Não acho que isso seja um problema. Documentários, quando bem-feitos, podem atingir um grande público, tão grande quanto um filme de ficção. Se a história é boa, ela vai conseguir atingir as pessoas.

Você mencionou os problemas enfrentados por diversos produtores em relação à Lei Rouanet e ao modo como os filmes são financiados no Brasil. O que acha que deveria acontecer – por exemplo, alguma modificação nesse sistema de produção e financiamento?

Não temos uma indústria de cinema no Brasil, isso é fato – como aliás ela não existe em nenhum outro lugar a não ser nos EUA e na Índia, que chega a produzir o dobro da indústria americana. O problema maior, ao meu ver, é que os meios ficam limitados demais, depende-se muito do dinheiro público, que na maioria das vezes é mal administrado, fonte de corrupção e coisa errada, muito ligado a favores e conexões duvidosas. É preciso haver maior fiscalização, maior controle dos gastos, e verificar se realmente eles estão sendo direcionados para o projeto. Parece que, depois dos últimos escândalos, vai haver um movimento em relação a isso e eu espero sinceramente que ele aconteça.     

Além de produtora, você também exerce a fotografia, acredito eu, como hobbie – e gosta muito de música, expressões muito ligadas à sensibilidade. A impressão que às vezes temos é a de que produtores são, nas palavras de Federico Fellini, “seres absolutamente insensíveis, que não entendem nada de roteiro e gosto do público, e sempre querem mudar o final do filme.”

Hahaha. Não sei se o Fellini se referiu a todos os produtores – muito provavelmente àqueles com quem ele trabalhou. O que posso dizer por mim é que sou uma apaixonada por captar os momentos, as viagens (adoro viajar e conhecer lugares!), e os detalhes de tudo o que vejo e acompanho. É claro que sou enérgica, para se trabalhar neste meio é preciso pulso firme, do contrário a pessoa fatalmente não aguenta. Mas o mais importante é que consigo equilibrar na medida do possível e fazer meu trabalho da melhor forma que consigo.

Agora com um site novo e novas perspectivas, quais são os planos para a Sincronia Filmes?

Humm – não gosto muito de divulgar essas coisas ou falar sobre projetos que ainda estão em andamento. Temos muitos planos e projetos, evidentemente, e não só aqueles ligados ao Tecnologia, que aliás vamos distribuir de forma independente também. O que posso dizer é que queremos continuar produzindo e fazendo nosso melhor, não importa o que seja. Meu desejo é sermos referência no mercado – saber que seremos reconhecidos como uma empresa inovadora no segmento, preocupada em fazer os trabalhos da forma mais honesta possível, respeitando as pessoas e dirigida não por um meio específico, mas por uma missão que seja nobre, a de produzir conteúdo de excelência.

Marcela Liz é jornalista e empreendedora.

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